Quando Jesus disse: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10), ele cumpria uma das suas profecias que se Encontra no Evangelho escrito por Mateus 8,20: “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. A vida não pode esperar. Este versículo nos dá uma idéia de urgência, de pressa, de itinerância. Por este motivo encontramos Jesus aqui e acolá, pela manhã, à tarde, à noite, como mensageiro, missionário da Boa Nova e da Salvação.
Se tivermos um pouco de curiosidade e paciência e tomarmos a nossa Bíblia nas últimas folhas, encontraremos mapas da Palestina do tempo de Jesus, com as escalas correspondentes. Tomando uma régua e medindo as distâncias entre as cidades das quais se refere o versículo trinta e um, descobriremos que para curar um surdo-mudo, Jesus percorreu com os seus discípulos, a pé, a distância aproximada de 160 km. Andando em média 20 km por dia, Jesus gastou em torno de dezesseis dias para chegar à última cidade da Decápole (conjunto de dez cidades), onde “trouxeram-lhe um surdo que gaguejava e rogaram que impusesse as mãos sobre ele”. - Por que não pediram diretamente que o curasse?
A imposição das mãos para o povo judeu carregava na sua simbologia algo de divino, algo de sagrado, porquanto este gesto era utilizado (e ainda hoje é), também por nós cristãos, como gesto de consagração. Consagração de ofertas (Lv 1,4; 3,2; 4,15; 16,21); Consagração de homens para o serviço de Deus (Nm 8,10; 27,18; Dt 34,9; At 6,6; 1Tm 4,14; 5,22; 2Tm 1,6); Consagração para abençoar (Gn 48,14; Mt 19,15; Mc 10,16); Consagração para curar (Mc 6,5; 7,32; 16,18; Lc 4,40; 13,13; At 28,8). Impor as mãos era sinal de Consagração, de bênção e de cura. Neste caso particular ele receberia de Jesus a cura que seria como uma bênção de Deus para aquele seu filho.
“Levando-o a sós para longe da multidão, colocou os dedos nos ouvidos dele e, com saliva, tocou-lhe a língua”. Jesus retira o homem para um lugar afastado porquanto o que motivava aquela multidão era a curiosidade, e não a fé; toca os seus ouvidos com os dedos, visto que somente a fé será capaz de retirar a força curativa do qual é possuidor; toca-lhe com saliva a língua, porque era crença daquele povo que a saliva possuía poderes medicinais curativos... E Jesus sabe respeitar a cultura de cada um.
“Depois, levantando os olhos para o céu, gemeu, e disse: ‘éfata’, que quer dizer – abre-te! Imediatamente abriram-se-lhe os ouvidos e a língua se lhe desprendeu, e falava corretamente”. Só podemos falar corretamente se ouvirmos corretamente. A nossa audição poluída com palavrões, letras musicais de duplo sentido, pornografia, imoralidades, mentiras, nos levam inevitavelmente a uma forma incorreta de falar ou de calar. A nossa mudez, a nossa gagueira espiritual, são frutos estragados de ouvidos mergulhados na sujeira do mundo. Bem falou Jesus quando disse: “A boca fala daquilo que o coração está cheio” (Lc 6,45).
Este homem que na tradução da Bíblia de Jerusalém é apresentado como surdo-gago pode muito bem ser eu, pode muito bem ser você. Se os apelos do mundo ensurdeceram os ouvidos dos nossos corações e por isso gaguejamos pela vida, gaguejamos na nossa religião católica, gaguejamos aos apelos da Igreja, Jesus é delicado e, acima de tudo, discreto. Agora, neste momento, ele me convida, ele te convida, convida o teu filho, convida tua filha, teu esposo, tua esposa, cada membro de tua família, de nossa família, a entrar cada um dentro do próprio coração, a interiorizar-se, a permanecer sós, longe da multidão. Então ele colocará os seus dedos em nossos ouvidos, tocará a nossa língua com a sua saliva e ordenará: “Éfata!” Instantaneamente nossos ouvidos se abrirão para as coisas de Deus; nossa língua se desprenderá para que possamos cantar as maravilhas do Senhor; e falaremos corretamente, sem gagueira, visto que Jesus nos ensinou a ouvir. São paçavras e gestos que curam o corpo, a alma e o coração.
